sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Lenda



A LENDA

Começo dizendo que as comparações são do planeta Thalís com o planeta Terra, por motivos óbvios. Se eu estivesse em Betelgeuse, estaria comparando Thalís com Betelgeuse. Aviso porque não pode haver dúvida; desde o início deverei ser o mais clara, honesta e aberta possível, para que esta estória tenha fundamento, substância.
Estou falando do que vivi, sem a dificuldade de esconder algo de alguém. Estou livre para ser o que sou.

Começo com uma lenda, porque a lenda acaba explicando, de uma forma mágica, tudo o que se passou naqueles tempos. E é bom um pouco de magia, para deixar as coisas mais “fáceis” de se encarar, às vezes. Não que seja fácil fazer parte de uma lenda.

Não se sabe qual a origem desta lenda. Fragmentos de um poema foram achados à muito tempo por uma mulher simples, em algum lugar remoto de Thalis, quando as pessoas ainda eram fortes e imortais.
Durante muito tempo esteve no imaginário coletivo do planeta, fazendo parte do Enigma do Futuro. Não havia indícios de que o planeta precisaria de uma salvadora naqueles tempos. Eram felizes e imortais. A lenda era algo assustador, se pensar bem.

A Deusa forasteira traria em sua bagagem a libertação do planeta inteiro.
Não haverá seres na terra, na água e no ar que não receba o benefício da Deusa.
Naqueles tempos, grande dor se abaterá sobre todos.
A escuridão da morte a todos abraçou, sem escolher reinos.

A lenda dizia que uma deusa desceria dos céus para trazer renovação para nosso planeta. Todos acreditavam nisso e eu entendo que assim era preciso. Uma consciência sem um propósito, sem acreditar em alguma coisa, não produz imaginação, não vive intensamente, não se lança para a vida. E porque tem certos momentos na vida que apegar-se à algo é a única coisa sensata a se fazer.

Coincidência ou não, minha mãe veio numa nave, mas numa de carga e foi em Thalis mesmo. Não veio exatamente salvar o planeta, nem veio fugindo, às pressas, de algum lugar em chamas nalgum lugar do Universo. Não. Ela veio porque queria, ela mesma, que sua vida mudasse e que houvesse renovação na rotina, olhar para diferentes rostos, gente nova, falando outros idiomas.
Veio também porque sabia que, com seu conhecimento, poderia trabalhar melhor em um lugar onde a burocracia de um mundo velho e doente não estivesse com seus tentáculos a segurá-la. Pensando nisso, acabou aceitando a transferência para um cargo de maior importância, numa estação de biociência pequena, numa região pouco frequentada por pessoas que gostam de atividades sociais e grandes agitos em festas e comemorações sem fim: ir para as camadas geladas do norte de Thalis foi a opção de minha mãe.

Elas são famosas por seu acúmulo de algas que, combinadas com outros componentes, conseguem mover grande quantidade de energia. Seja para o corpo, quando processada ou para motores, quando reaproveitada. Limpa, renovável. Mas havia dois problemas: se desenvolvem em ambientes absolutamente sem luz, e Thalis, com seus dois sóis, tinha luz em demasia e, por algum motivo, não sobrevivem por muito tempo sem um “hospedeiro de origem”. Era como se os componentes da alga se alimentassem só “na casa deles”. Era preciso um componente original do solo de Thalis para que elas se multiplicassem. As calotas polares eram o único ambiente que podia proporcionar muito mais tempo de escuridão, visto que os sóis não atingiam todas as áreas das calotas. Uma região pequena, perpétua e ininterruptamente fria e escura. Era apenas nesta pequena área que o solo poderia ser escavado e seus poucos grãos levados em tubos e aquários gigantes. O resto do planeta era rocha pura, condensada em camadas e mais camadas de material duro e resistente. Tirar componentes do solo para que as algas se reproduzissem. Não havia forma conhecida em Thalis, de perfurar o solo duro. Minha mãe não conheceu terra, pelo menos não como vocês a vêem aqui na Terra: nem voando em ralas nuvens de pó, nem grossa e pesada como a lama, nem cheirosa depois da chuva.

Seus estudos e experiências com uma combinação nova de componentes acabou chamando a atenção do Governador de Thalis. Uma combinação poderosa, capaz de devolver a capacidade que seus ancestrais possuíam: recuperar partes do corpo que não funcionavam mais, sistema imunológico com células altamente energéticas, carregadas de “armas poderosas” para a defesa e manutenção do corpo. Corpos que não adoeciam, mentes que não definhavam, decrepitude inexistente.
Não era sua intenção salvar Thalis. Mas o resultado de suas experiências, se positivo, traria, com certeza, um sopro de renovação do ar. Uma esperança de vida.
Por quê??

Os habitantes já viviam muito tempo, mesmo para um “mortal”.
Mas as doenças estavam enfraquecendo as pessoas, e a vida ficou difícil num planeta onde tudo acontece bem devagar. Com recursos escassos, os thalirianos se voltaram para a lenda, buscando na renovação a chance de sobreviver. O planeta já não podia dar o sustento da vida. Tudo se acabou nas mãos dos antigos. Os thalirianos viviam agora em domus gigantes, desenvolvendo nestes domus todo tipo de vida que ainda podia se reproduzir artificialmente. Não foi fácil no começo. Os domus eram precários e as espécies ainda não tinham sido aperfeiçoadas. A biociência era muito importante para os thalirianos. Significava a vida.
Thalis sofreu, muito por longas eras, o desgaste de ter seus recursos naturais consumidos sem previsão, sem controle. Olho para o planeta Terra hoje e fico imaginando se em Thalis foi assim que começou. Será que havia discussões sobre aquecimento global, camadas da atmosfera que se vão por causa da poluição, extinção de animais e ecossistemas?
Minha mãe nasceu numa Thalis estéril, já há muito procurando se reerguer da pedra. Quando sua experiência começou a dar resultados, os cientistas da pequena estação tremeram, pois viram que a Alga Combinada podia mesmo ajudar. A capacidade de renovação celular era incrível para que o mundo não soubesse. Poderiam usar sua fórmula e desenvolver novas espécies, novas porque não existiam mais em Thalis, mas que haviam sido plantadas e cultivadas no planeta quando havia vida na superfície. Isso era a reviravolta na estória do planeta.

E Thalis soube disso. Em pouco tempo, o planeta inteiro voltava seus olhos para minha mãe, e ela, de repente, se elevou na sociedade, lugar onde ela nunca quis estar. De uma hora para outra, minha mãe se viu sentada em frente a uma enorme porta, numa sala enorme, com o teto mais alto que jamais vira, no prédio mais importante de Thalis e o planeta todo sabia disso. Iria falar com o homem mais importante de Thalis naquele dia. E nada mais seria como antes.

Ela deve ter odiado este dia. Pelo menos parte dele. Se por um lado, estar lá era tudo o que ela nunca quis, por outro, aquilo que ela mais desejou, encontrou: uma renovação em seu ser como ela jamais conheceu. Uma força que nasceu dentro dela como jamais havia sentido: amor. Acho que este sentimento bate todos os outros. Não que seu oposto não seja igualmente forte. Claro que é. Afinal temos as forças das nossas fraquezas, ou melhor, as fraquezas de nossas forças.

Um homem pequeno e com aspecto asqueroso entrou na sala. Parece que em minha mente, vejo a mesma coisa que ela. Corre em meu sangue a memória de muita coisa do que ela viveu. Não todas, mas aquelas que eu preciso saber. Mais uma dessas maravilhas genéticas, que eu adoro viver e descobrir em mim.
Acho que ela deve ter pensado a mesma coisa que eu pensaria: este não pode ser o governador. Havia imagens dele, é claro. Mas eu sei que ela nunca prestou atenção em nenhuma delas. Lembrou tardiamente disso, quando já estava sentada na macia cadeira suspensa, na ante-sala do homem, que ela nem lembrava do rosto.

O homenzinho se aproximou e a convidou para segui-lo. A porta enorme se ai e abriu e aí, lá estava ele: o governador em pessoa. Estranhamente, não sentiu nenhum temor. A figura em pé á sua frente era a expressão da harmonia. Um homem simples, alto e magro, quase desengonçado naquela roupa larga. Cabelos brancos, olhos azuis profundos, riso largo e sincero. Estendeu sua mão para ela e eles nunca mais se separaram.

E ela, minha mãe, foi reconhecida como a deusa que traria a solução de todos os problemas. Juntando-se ao governador, o homem mais forte e importante de Thalis, minha mãe era uma Deusa.